M&A no Brasil

Nádia Dietrich

8/14/2026

Menos negócios, cheques maiores e um novo nível de exigência para as empresas

O mercado brasileiro de fusões e aquisições mudou de ritmo. No primeiro semestre de 2026, foram menos transações, mas o capital movimentado aumentou. Para empresas que pretendem crescer, captar investimentos ou se preparar para uma venda, o recado é claro: qualidade, estratégia e preparação estão valendo mais do que nunca. O mercado brasileiro de fusões e aquisições (M&A) começou 2026 com um movimento que merece atenção.

No primeiro semestre do ano, as operações de fusões e aquisições movimentaram US$ 32,6 bilhões no Brasil, um crescimento de aproximadamente 15% em relação ao mesmo período de 2025.

Mas existe um dado ainda mais relevante: esse crescimento aconteceu mesmo com uma queda de aproximadamente 35% no número de transações, que chegou a 593 negócios no período. Em outras palavras: menos negócios, mas operações maiores.

O cenário revela uma transformação importante no comportamento dos investidores. O capital continua disponível, mas está sendo direcionado de maneira mais seletiva para empresas e ativos que apresentam fundamentos sólidos, posicionamento estratégico, potencial de crescimento e capacidade comprovada de geração de valor.

O que significa "menos deals, mas cheques maiores"?

Durante períodos de maior disponibilidade de capital, é comum observar um mercado de M&A mais pulverizado, com maior quantidade de transações e investidores dispostos a assumir mais riscos. O cenário atual é diferente.

Os investidores estão analisando com mais profundidade onde colocar o capital. Isso significa que uma empresa pode continuar sendo atrativa mesmo em um mercado mais seletivo — mas precisa conseguir demonstrar, de forma objetiva, porque vale a pena investir nela. Os números do primeiro semestre ajudam a ilustrar essa concentração.

Do total movimentado no Brasil, aproximadamente US$ 20,3 bilhões corresponderam a operações tradicionais de M&A, distribuídas em 297 transações. As aquisições de ativos somaram outros US$ 4,4 bilhões em 151 operações, enquanto o private equity movimentou aproximadamente US$ 6,5 bilhões em 41 transações. Já o venture capital registrou 106 investimentos, totalizando cerca de US$ 1,3 bilhão. O movimento, portanto, não indica ausência de capital. Indica maior concentração de capital em oportunidades consideradas mais estratégicas.

Tecnologia continua liderando, mas não está sozinha

Entre os setores com maior número de operações, a tecnologia permaneceu na liderança, com 104 transações envolvendo empresas de software e serviços de tecnologia da informação. O setor imobiliário apareceu logo depois, com 98 operações e crescimento de 17% em relação ao mesmo período do ano anterior, também ganharam destaque segmentos como serviços profissionais e bancos e investimentos.

Por outro lado, algumas das maiores operações do período mostram que o interesse dos investidores vai muito além da tecnologia.

Um dos exemplos mais emblemáticos foi a aquisição da Serra Verde, empresa brasileira ligada à produção de terras raras, pela norte-americana USA Rare Earth, em uma operação estimada em aproximadamente US$ 2,75 bilhões. O negócio chama atenção não apenas pelo tamanho, mas pelo caráter estratégico dos ativos envolvidos. As terras raras são utilizadas em cadeias relacionadas a veículos elétricos, energia, tecnologia, defesa e diversos segmentos considerados estratégicos para a economia global.

Esse tipo de operação mostra uma característica importante do M&A atual: os investidores não estão olhando apenas para o tamanho da empresa, mas para a relevância estratégica do ativo e para o valor que ele pode gerar no futuro.

O que mudou para quem quer vender uma empresa?

Talvez essa seja a principal pergunta que os dados de 2026 deveriam provocar nos empresários, se existem menos transações, mas mais capital concentrado em operações maiores, o que uma empresa precisa fazer para estar entre aquelas que conseguem atrair esse capital?

A resposta passa por um conceito fundamental: preparação para M&A. Uma empresa não deveria começar a se organizar quando decide colocá-la à venda. O processo começa muito antes.

Um potencial comprador vai querer entender, entre outros aspectos:

  • Quanto a empresa realmente gera de resultado?

  • A receita é recorrente ou concentrada em poucos clientes?

  • Qual é a margem operacional?

  • Como está estruturado o fluxo de caixa?

  • Existem passivos ocultos?

  • Os contratos estão formalizados?

  • A contabilidade representa adequadamente a realidade do negócio?

  • A empresa depende excessivamente dos sócios?

  • Existem processos e indicadores de gestão?

  • Qual é o potencial de crescimento?

  • Quais são as barreiras de entrada?

  • O negócio possui diferenciais competitivos?

  • Existem riscos jurídicos, tributários, trabalhistas ou regulatórios?

  • O que aconteceria com a empresa se o principal sócio deixasse de participar da operação?

Essas perguntas não servem apenas para uma due diligence, elas ajudam a determinar o valor percebido pelo comprador.

O valuation começa muito antes da negociação

Em um mercado mais seletivo, valuation não é simplesmente aplicar um múltiplo sobre o faturamento ou sobre o EBITDA, o valor de uma empresa está relacionado à combinação entre seus resultados atuais, seus ativos, seus riscos e sua capacidade de gerar resultados futuros, por isso, duas empresas que atuam no mesmo segmento e possuem faturamentos semelhantes podem apresentar valores completamente diferentes em uma negociação.

Uma empresa organizada, com processos documentados, informações financeiras confiáveis, governança mínima, carteira de clientes diversificada e perspectivas claras de crescimento tende a apresentar uma tese de investimento muito mais consistente, isso reduz incertezas e, em uma operação de M&A, reduzir incerteza também significa proteger valor.

A due diligence está deixando de ser apenas uma etapa final

Outro movimento importante observado no mercado é o aumento da importância da diligência com cheques maiores e menos operações, cada transação carrega uma relevância maior para o investidor.

Consequentemente, a análise financeira, contábil, jurídica, tributária, operacional, tecnológica e estratégica passa a ter um papel cada vez mais importante na decisão de investimento, a diligência deixa de ser apenas uma conferência dos documentos apresentados pelo vendedor, ela passa a ser uma ferramenta para responder a uma pergunta muito mais importante:

"Este negócio realmente vale o que estamos pagando?"

Essa mudança também altera o papel do empresário, não basta apresentar uma empresa bonita comercialmente é necessário conseguir comprovar o valor do negócio por meio de dados, processos, documentos e evidências.

O mercado ficou mais seletivo. Isso é ruim?

Não necessariamente. Para empresas bem estruturadas, um mercado mais seletivo pode representar uma oportunidade, isso porque a seletividade tende a aumentar a diferenciação entre empresas preparadas e empresas que ainda dependem excessivamente de informações informais, conhecimento concentrado nos sócios ou resultados difíceis de comprovar.

Em outras palavras: quando o capital fica mais criterioso, a preparação passa a ser um diferencial competitivo. Empresas que conseguem demonstrar claramente seu desempenho, seus riscos, seus diferenciais e seu potencial conseguem participar de uma conversa muito mais qualificada com investidores e compradores.

E para o empresário que ainda não quer vender? A preparação para M&A não deve ser confundida com uma decisão de venda, uma empresa preparada para uma eventual transação também tende a ser uma empresa melhor preparada para crescer. Organizar indicadores, estruturar processos, reduzir dependência do sócio, melhorar a qualidade das informações financeiras, fortalecer a governança e construir uma estratégia de crescimento são iniciativas que geram valor independentemente de uma operação de M&A acontecer amanhã, daqui a cinco anos ou nunca. Por isso, preparar uma empresa para M&A é, antes de tudo, preparar a empresa para o próximo estágio de maturidade.

O novo cenário do M&A brasileiro

Os dados do primeiro semestre de 2026 deixam uma mensagem bastante objetiva, o mercado brasileiro continua movimentando volumes relevantes de capital, mas os investidores estão mais seletivos. O número de operações caiu, enquanto o valor movimentado aumentou.

Na América Latina, o movimento também foi de redução no número de transações. Foram registradas 1.062 operações no primeiro semestre, aproximadamente 30% menos que no mesmo período de 2025, enquanto o valor total chegou a US$ 49,1 bilhões. O Brasil permaneceu como o principal mercado da região em número de operações.

O cenário pode ser resumido em três palavras: menos volume, mais critério e isso muda a preparação necessária para quem pretende acessar o mercado de capitais, buscar um sócio estratégico, receber investimento ou eventualmente vender sua empresa.

O que empresas brasileiras deveriam fazer agora?

Em um ambiente como esse, esperar a oportunidade aparecer para depois organizar a casa pode significar perder valor. O momento mais estratégico para começar a preparação é antes de iniciar uma negociação.

Isso envolve mapear a empresa, organizar informações, identificar riscos, estruturar indicadores, avaliar a dependência dos sócios, compreender o posicionamento competitivo e construir uma narrativa de investimento baseada em dados. Porque, no final, um comprador não compra apenas faturamento. Ele compra capacidade de geração de valor futuro, e quanto mais clara for essa capacidade, maior será a qualidade da conversa entre comprador e vendedor.

A visão da Savitri

Na Savitri Business Consulting, entendemos M&A como um processo que começa muito antes da assinatura de um contrato. A preparação envolve estratégia, finanças, processos, governança, gestão de riscos, valuation e posicionamento.

Nosso trabalho é ajudar o empresário a transformar a empresa em um ativo mais organizado, mensurável e preparado para uma eventual transação — seja para venda, entrada de um investidor, aquisição de outra empresa ou expansão estratégica.

Porque uma empresa não deveria começar a se preparar para uma negociação quando encontra um comprador. Ela deveria estar preparada para ser comprada quando a oportunidade aparecer.

Fonte dos dados: levantamento de mercado elaborado pela Aon em parceria com TTR Data e Datasite, referente ao primeiro semestre de 2026.

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